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domingo, 30 de março de 2014

Artista de Rua

Tenho-me entretido a construir um sarcófago
Onde repousa o que alcancei.
Não vou fugir por ti, nem pelo sonho,
Nem pelo fado, nem por Gaia,
Porque até quando o céu chora, eu sorrio

Mas não te deixes ludibriar!
Se o meu passado for presságio do teu futuro,
Sossega, vou-te contar um segredo
Que escorre como a chuva, transparente e puro:

Sou o culminar de todo o potencial desperdiçado;
Sou o poeta que nunca escreveu,
Sou o músico que nunca compôs,
Sou o filósofo que nunca pensou,
Sou o humorista que nunca gracejou,
Sou o génio que nunca criou,
E eis que, numa frenética apoteose, glorifico o tudo que não sou

Bernardo de Almeida Henriques

segunda-feira, 17 de março de 2014

Serenata

Pudesse eu engolir o coração
E amá-la por dentro,
Extravasava o sentimento
E escrevia-lhe uma canção

Espezinhava a capa,
Flectia o joelho,
Aguçava a voz na Lapa,
Pedia ao Choupal conselho

Trepava a hera, roubava-lhe um beijo
Pele de neve, bochecha rosada;
Como é belo viver uma vida apaixonada

Bernardo de Almeida Henriques

sábado, 8 de março de 2014

Pé de Dança

Foi um acordo tácito,
Abandonei a razão
E abracei a paixão

É viciante, este tango perigoso:
O metrónomo define o passo rigoroso;
Compasso binário, dançado a um;
Mescla de drama, desejo saudoso,
Sensualidade, amor e conquista.

Ainda não a convidei para ser o meu par.
Cabelo cor de azeitona, embevece-me;
Olho cor de amêndoa, penetra-me;
Verticalidade graciosa, intimida-me;
Génio vigoroso, arrebate-me;

Como posso eu convidá-la para dançar
Se ao mínimo deslize, começo a tropeçar?


Bernardo de Almeida Henriques