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sábado, 18 de março de 2017

Cotovia

Vi-a ondulante e destoada,
Uma cotovia a esvoaçar sob as estrelas.
Subiu ao céu, roubou-lhes o cintilar
Mergulhou no ar e enfeitiçou-me.

As noites tornaram-se dela
E como num toque de sino,
O crepúsculo na minha janela
Chamava-me para escutar o seu hino.

Assobiávamos numa única voz
E confundiam-se os corpos em movimento
Mas de manhã, ela voava para lá da foz
E eu permanecia preso ao chão.

Numa das celestiais dança ao luar
Capturei-a para não me fugir.
Pus-lhe nas asas os meus sonhos
E o pouco que restava de mim,
Na esperança de nunca mais a perder

Tal como os meus sonhos,
As asas da cotovia não conheciam limites.
Escapuliu-se e levou-me com ela
Sob o sol, a lua, as estrelas,
Sobre o mar, sobre as falésias, sobre as árvores.
Esvaziou-me.

Percorro ruas labirínticas e desconhecidas
E ao virar da esquina encontro desassossego,
E as sombras perseguem-me até à noite,
Porque continuo a visitar o crepúsculo.
Oiço silêncio e os ecos do que ficou por cumprir,
Mas vejo-te no horizonte, comigo nas tuas asas

À espera de me reencontrar no teu feitiço.

Bernardo de Almeida Henriques