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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Bella Ciao

Ecoou intemporal o grito
do resistente sepultado
sob a sombra de uma bela flor,
no alto das montanhas.

Brado contido na sombra
da azinheira grandolense
e do salgueiro do Carmo,
que deu à luz um Cravo.

Era a madrugada de êxtase,
alegria eufórica de ser livre
volvidos quarenta e oito anos de noite
sanguinária, pútrida, bafienta e sufocante.

E depois do adeus,
renasce a Esperança em Abril
e no devir da utopia,
promessa cantarolada de futuro:

"E se todo o mundo é composto de mudança,
troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança".

Bernardo Almeida Henriques

sábado, 2 de março de 2019

Porvir

Sorrateira, navega o azul do céu
e esborrata o branco das nuvens,
bebe oceanos esmeralda
e devora montanhas prateadas.

É a expetativa do recomeço,
paleta de tinta a sarapintar
o virgem por desbravar
e o possível impossível.

Metamorfose antes de o ser,
é a candura de quem cisma
a felicidade por vir.

E cismando,
no encanto da hipótese,
recomeço, recomponho, reinvento, refaço.

Bernardo Almeida Henriques

domingo, 20 de janeiro de 2019

O Sopro

Despir dentes-de-leão
em vales sobre searas
dançando ao ritmo do vento,
no conchego do teu regaço.

Sonhos de flor branca
a caiar o dourado trigueiro
e o castanho do teu cabelo,
no feixe de luz poente.

Partilhamos devaneios,
repousamos anseios,
até espirrar um dos sonhos flutuantes.

E a gargalhar, a vida acontece
cândida e plena, insuflada
pelo instante de um sopro.

Bernardo Almeida Henriques

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Cantar da Matriosca


Exausto com o peso desta chaga saudosa.
De me olhar ao espelho e ver o rosto dos meus antepassados,
Da vontade compulsória de honrar um fado que não é meu,
De saber de onde vim desconhecendo para onde vou.

No ermo do sol poente
Perdido em caminhos de matriosca, busco-me
Por entre os invólucros dos meus pais e avós,
Esperançoso de encontrar a minha própria voz.

Que chagas vou deixar quando for eu antepassado,
Neste círculo vicioso de nos descobrirmos a nós e às nossas circunstâncias.
Afinal de contas, qual é o legado que vou cantar?

Bernardo de Almeida Henriques

terça-feira, 16 de maio de 2017

Alma de Tinta

A cessação do som
Ensurdece por escrito
O espírito do bom,
Cega-o para ver o atrito
Criado pela palavra sem tom.

Essa dádiva de falar no sossego da tinta
Toca a alma e urra no silêncio.
Une e separa,
Cria e destrói,
É movimento e estatismo,
Ama e odeia.

Quando o poeta aprende a escrever
Já conheceu o mundo e o Homem.
Compõe a verdade e fala por dever.

Bernardo de Almeida Henriques

sábado, 18 de março de 2017

Cotovia

Vi-a ondulante e destoada,
Uma cotovia a esvoaçar sob as estrelas.
Subiu ao céu, roubou-lhes o cintilar
Mergulhou no ar e enfeitiçou-me.

As noites tornaram-se dela
E como num toque de sino,
O crepúsculo na minha janela
Chamava-me para escutar o seu hino.

Assobiávamos numa única voz
E confundiam-se os corpos em movimento
Mas de manhã, ela voava para lá da foz
E eu permanecia preso ao chão.

Numa das celestiais dança ao luar
Capturei-a para não me fugir.
Pus-lhe nas asas os meus sonhos
E o pouco que restava de mim,
Na esperança de nunca mais a perder

Tal como os meus sonhos,
As asas da cotovia não conheciam limites.
Escapuliu-se e levou-me com ela
Sob o sol, a lua, as estrelas,
Sobre o mar, sobre as falésias, sobre as árvores.
Esvaziou-me.

Percorro ruas labirínticas e desconhecidas
E ao virar da esquina encontro desassossego,
E as sombras perseguem-me até à noite,
Porque continuo a visitar o crepúsculo.
Oiço silêncio e os ecos do que ficou por cumprir,
Mas vejo-te no horizonte, comigo nas tuas asas

À espera de me reencontrar no teu feitiço.

Bernardo de Almeida Henriques

domingo, 25 de outubro de 2015

Alegria desalegre
e felicidade infeliz
essa prescrição do amor

Escravidão da vontade
ludibrio do excesso
contenda do estar pelo ser

Se amor é viver,
vivamos o nosso íntimo
que o mundo desconhece
quem inveja os seus anseios

Assenhorear a harmonia
singular do ser
Essa melodia
Impossível de esquecer

Bernardo de Almeida Henriques