Enquanto existir chama na minha
alma, nunca farás parte do passado, tu és a acendalha deste lume. Hoje
apetecia-me escrever-te uma carta de amor, para reavivar um tempo áureo em que
se saboreava a saudade provocada pela demora, o cheiro da tinta e do papel, um
tempo onde a caligrafia transparecia o estado de espírito, onde se apreciavam
as subtis mudanças na escrita, na escolha das palavras, um tempo em que a
distância não era obstáculo para amores platónicos. Às vezes sinto que vivo num
tempo que não é meu: a juventude não demonstra coragem para moldar o futuro à
sua imagem; a sociedade está formatada e prevalece a anomia social e o discurso
vazio de conteúdo; não se apreciam os pormenores da vida e vive-se num frenesim
pouco saudável, sem destino aparente; vigora a crise de mentalidade.
Por isso, meu amor, hoje, escrevo
só para ti:
Não vou dizer-te que sinto
saudades, que não me esqueci de ti, que ainda
te amo, estaria a menosprezar-nos, eu sei que o que tivemos foi algo ímpar e
não preciso de salientar evidências (eu sei que é recíproco, não pode ser de
outra maneira, pois não?). Hoje, vou só relembrar-te de nós.
Estou deitado na cama, tenho a
companhia de um maço de tabaco, de uma garrafa de whisky e de um caderno de
rascunhos. Foi neste preciso colchão onde transformámos horas em dias, onde te cantei, onde te toquei melodias no piano , onde
sorri, onde me apaixonei, onde sonhei, onde chorei, onde relembrei, onde esperei, onde senti
saudade. Veio-me à cabeça o cheiro do teu perfume, do champô com que
gentilmente acariciei o teu cabelo, da tua casa, da chuva quando ia ao teu
encontro, do tabaco impregnado nos nossos lábios, dos teus majestosos cozinhados, do teu sofá quando nos aninhávamos. Mais do que cheiros, recordo-me de momentos: da serenata que elegantemente te dediquei, do meu inocente e desajeitado pedido de namoro, da ansiedade que senti quando te ofereci o cravo, do sentimento de aliança que o isqueiro que me trouxeste de Paris me provocou, do orgulho
de me trajar fora do tempo no choupal só para ti, da osmose que criávamos quando os nossos olhos se cruzavam e os
nossos narizes se encontravam, da preocupação que me abalou durante tua estadia no hospital e que me compelia a
estar ainda mais próximo de ti, de conhecer o teu pai e falar com a tua mãe e
com a tua irmã, preocupadíssimas contigo, da minha declaração de amor no cortejo,
do relógio que te ofereci pelos anos para contares o tempo até ao nosso reencontro, do sentimento de realização ao me
apresentares aos teus amigos, da paixão do nosso primeiro beijo nas margens do Mondego,
da saudade que apertou enquanto estiveste em Paris, da primeira vez que demos
as mãos em público, de quando me deste a conhecer o teu tumblr para inspirar melhor o teu mundo, da proximidade
que senti quando me mostraste os teus desabafos escritos em papel, bem como as
fotografias do teu passado, de te adormecer, de adormecer contigo, das tuas
provocações, dos nossos cafés. Lembras-te? Aqui, nesta cama, recordo-me de ti e
apercebo-me: não é aqui o meu lugar, eu pertenço-te.
Hoje falta-me a inspiração para escrever grandes palavras, mas por vezes, a simplicidade traduz grandiosidade. Deste-me muito para recordar, mas espero que não se resuma a isso. 21-02-2013, página 52 de 365, espero que este livro, tenha sequela
Hoje falta-me a inspiração para escrever grandes palavras, mas por vezes, a simplicidade traduz grandiosidade. Deste-me muito para recordar, mas espero que não se resuma a isso. 21-02-2013, página 52 de 365, espero que este livro, tenha sequela

