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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Amizade Repousada

Como um livro repousando
Na mesa-de-cabeceira,
Companheira fiel, aconchegando
Pacientemente a fumaceira
Da minha pessoa

Como um livro repousando
Na mesa-de-cabeceira
Nem sempre desfolhado
Nunca é esquecida
Ensinamento embrulhado

Como um livro repousando
Na mesa-de-cabeceira
A história por vezes arrefece
Por vezes reaquece
Mas nunca falece

És paciência e condescendência
És ouvinte de requinta
És sorriso, palhaça cheia de graça
És passado e intriga
E quando desafino da cantiga
Afinas-me, com palavra amiga

Bernardo de Almeida Henriques

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Papel Aguarela

Poder-me pintar fora da tela,
Esborratar-me dos pés à cabeça
Esgotar-me nas minhas verdadeiras cores
Flutuar em tons de aguarela,
Num papel que nunca esqueça
Todos os meus sabores


Galar-te para ser artista
Quase eu, quase solto, quase livre
Desenhando um traço que não me prive
Da tua companhia sem que ninguém nos assista

Bernardo de Almeida Henriques 


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Badalada

A lucidez sente errado
O receio esconde o certo.
E na Capa negra enrolado
Posso tê-la por perto:

Essa saudade de desejar,
Esperando que o fado abra
Na luz do de luar,
O som que inspira essa cabra
E que nos ensina a amar

Bernardo de Almeida Henriques

terça-feira, 22 de julho de 2014

Estuário

Somos um rio desde a nascente;
No regaço das margens que nos guiam
Esperam-nos a foz e o sol poente
Ansiosos pelas vozes que cresciam

Desaguamos na imensidão marítima,
Beijamos, desamparados, o tenebroso mundo
E esperam que dele não sejamos vítima?

Não sou marinheiro, nem sei velejar
Mas no regaço das margens que me guiam,
Vejo os meus pais a acenar
E com carinho preservo os valores que me ensinam ,
Na esperança de saber enfrentar um mundo
Que se constrói e desconstrói
Por Homens que o empobrecem a cada segundo

Bernardo de Almeida Henriques

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ás de Espadas

Vontade de estar faminto de vontade,
Corpo sedento de calor,
Alma inerte de frio.
Saudade de ser príncipe aclamado,
Preenche o meu trono vazio

Vejo de olhos fechados
O trono do Castelo de Cartas,
Preferindo a recordação como Ás de Espadas
À agonia presente de ser um duque de Paus

O Passado perde-se no tinto
E tropeço no Presente que não finto

Bernardo de Almeida Henriques

domingo, 27 de abril de 2014

Promessa

Comecei a escrever de luzes apagadas e de palavras bem acesas, deixas-me feliz.
Fui ensinado a não abrir a porta a estranhos, mas tocaste à campainha e deixei-te entrar, penetraste-me. Quando nos desviámos do nosso olhar pela primeira vez, apercebi-me que não eras uma mera estranha, relembraste-me que sou infinito. Sabes, estou convencido que somos duas fotocópias que o destino cuidadosamente moldou e juntou, para sermos eternas testemunhas do que somos. Perdoa-me a presunção.
Tenho sido um narrador de histórias escondido na sombra da minha vida, mas tu reacendeste o fogo-de-artifício que me coloria quando era personagem principal, a pouco e pouco, vou recuperando os estilhaços do que era. Obrigado, deixas-me feliz.
Felicidade é perigo, é um rugido violento que anda de mãos dadas com a tristeza. A felicidade é destrutiva. Quando te ausentas momentaneamente sinto que te ausentas definitivamente, aí, a tristeza entra em cena. Só quero atravessar as pontes levadiças que construíste, quero deixar-te feliz.
Já me arrependi vezes suficientes pelos riscos que não corri e tu és dos tais que só se cometem uma vez, portanto fica uma promessa repleta de convicção: Prometo que me vou esgotar em ti e que vou falhar sistematicamente, mas não desisto.
"Desistir de nós, não é desistir de ti. E já agora, não o tenciono fazer em ambos os casos", lembras-te?
Espero que perdoes o meu orgulho, por vezes é maior que eu. Esta é a minha deixa para me despedir, não com um adeus, mas com um até já.

Bernardo de Almeida Henriques

sábado, 26 de abril de 2014

Migração

Gostava de ser uma andorinha:
Voar com a certeza do destino
Como nos meus tempos de menino,
Rumar para o desconhecido
Sem nunca o ter conhecido,
Regressar à rua onde cresci
Partir de novo para mundos que nunca vi.

Só que Homem, não é andorinha
Deambula sem saber para onde caminha
A vida molda-o corrompido
Porque não lhe satisfaz nenhum pedido.

A mente é um tempestuoso mar de ratoeiras
Navega-se sem bússola.
Cautela com a canção das sereias
Se te enfeitiçarem com a sua dor,
Perder-te-ás a ti,
Encontrarás adamastor.


Bernardo de Almeida Henriques  

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Portus Cale

Ó cidade invicta, berço de conquistadores,
O teu ferro inderrubável cruza o Douro,
Nos teus socalcos, as vinhas produzem inebriantes sabores
E a tua torre sineira brada o teu esplendor d'Ouro

Na ribeirinha resplandecem cores vívidas
E as regateiras de mão na anca, ganham calo custoso.
Prometo que um dia te saldo as minhas dívidas
Presenteaste-me com mulheres de espírito valoroso.

Sabes, as mulheres do Norte são como tu:
Invictas e conquistadoras,
Inderrubáveis e inebriantes,
Grandiosas e resplandecentes,
Vívidas e determinadas,
Belas e valorosas.

Espíritos indomáveis não rimam com subserviência
Mas não vou arredar o pé tripeirinha,
Serei prova viva de que a causa supera a consequência.

Bernardo de Almeida Henriques


domingo, 30 de março de 2014

Artista de Rua

Tenho-me entretido a construir um sarcófago
Onde repousa o que alcancei.
Não vou fugir por ti, nem pelo sonho,
Nem pelo fado, nem por Gaia,
Porque até quando o céu chora, eu sorrio

Mas não te deixes ludibriar!
Se o meu passado for presságio do teu futuro,
Sossega, vou-te contar um segredo
Que escorre como a chuva, transparente e puro:

Sou o culminar de todo o potencial desperdiçado;
Sou o poeta que nunca escreveu,
Sou o músico que nunca compôs,
Sou o filósofo que nunca pensou,
Sou o humorista que nunca gracejou,
Sou o génio que nunca criou,
E eis que, numa frenética apoteose, glorifico o tudo que não sou

Bernardo de Almeida Henriques

segunda-feira, 17 de março de 2014

Serenata

Pudesse eu engolir o coração
E amá-la por dentro,
Extravasava o sentimento
E escrevia-lhe uma canção

Espezinhava a capa,
Flectia o joelho,
Aguçava a voz na Lapa,
Pedia ao Choupal conselho

Trepava a hera, roubava-lhe um beijo
Pele de neve, bochecha rosada;
Como é belo viver uma vida apaixonada

Bernardo de Almeida Henriques

sábado, 8 de março de 2014

Pé de Dança

Foi um acordo tácito,
Abandonei a razão
E abracei a paixão

É viciante, este tango perigoso:
O metrónomo define o passo rigoroso;
Compasso binário, dançado a um;
Mescla de drama, desejo saudoso,
Sensualidade, amor e conquista.

Ainda não a convidei para ser o meu par.
Cabelo cor de azeitona, embevece-me;
Olho cor de amêndoa, penetra-me;
Verticalidade graciosa, intimida-me;
Génio vigoroso, arrebate-me;

Como posso eu convidá-la para dançar
Se ao mínimo deslize, começo a tropeçar?


Bernardo de Almeida Henriques

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sob o Fogo

Sob o fogo-de-artifício que pintava o céu, era a tua memória que coloria a minha mente. Enquanto o Mondego, modesto e tímido, espelhava os sonhos tingidos de pirotecnia, fantasiei com um Tejo, distante e agigantado. Felizmente para mim, todos os caminhos vão dar a Roma, ou melhor, ao Atlântico.
Pode ser que num destes dias desaguemos numa nova fábula amorosa, ou talvez não. Votos de um feliz ano novo, deste filho do Mondego, minha querida