Sou o culminar de todo o
potencial desperdiçado. Sou o poeta que nunca cantou. Sou o músico que nunca
compôs. Sou o filósofo que nunca pensou. Sou o humorista que nunca gracejou.
Sou o génio que nunca criou. E eis que, numa frenética apoteose, glorifico o
tudo que não sou.
Vivendo uma
vida que não me pertence, vendo o futuro desvanecer, sou historiador. Sou um
cândido contador de histórias, irremediavelmente quebrado, que vive o Passado
que não é seu. Contar histórias tornou-se o meu refúgio, afinal de contas,
falar de mim é um lembrete constante de todos os meus desinteressantes e
supérfluos fracassos e, simultaneamente, das minhas inúmeras virtudes. Sou um
paradoxo. Sou a consciência da minha excelência e sou a preguiça (que desprezo)
que me amarra à mediocridade. Será esse potencial uma bênção? Não. É uma
terrível tortura que me assombra a todo o instante, é um pesado conflito comigo
próprio que, como se tratasse de erosão, vai corroendo o nada que sou. Todos
nós temos uma face negra.
Entretanto,
como que uma brisa, saltitante, pulsante, refrescante e incessante, ela
subitamente apareceu. Eu sentia a primavera a chegar, eu desabrochava do casulo
que há tanto me oprimia e encantei-me com ela. Começou com o meu guarda-chuva
verde e o entrelaçar dos nossos braços para nos protegermos da chuva, seguiu-se
o café na associação. Os seus lábios moviam-se a uma velocidade estonteante,
próprio da sua irrequietude e “i
mpaciência”, e, as suas palavras soavam-me
aquelas sonatas suaves mas magnânimas, repletas de energia e sentimento. Como
bons caloiros que éramos, falámos de praxes e da faculdade, como bons boémios
que somos falámos de noites e namoricos, como desconhecidos que éramos, falámos
de gostos e interesses, o café durou pouco mais de duas horas. Lembro-me como
se fosse hoje que continuava a chover, o caminho era longo, molharam-se as suas
sapatilhas azuis e os meus sapatos de vela. A chuva realçava o seu sedutor e
apetecível perfume. Fiquei intrigado, como poderia eu reparar em tantos
detalhes em apenas duas horas? A curiosidade consumia-me e, nem que por
momentos, esquecia-me dos fantasmas que atemorizavam o tudo que não sou.
O contacto com
ela tornava-se constante e inevitável. Continuámos a estar juntos e corri um risco
enorme, comecei a olhá-la nos olhos, aqueles seus lindíssimos olhos esverdeados
que eram o seu reflexo: opacos como a realidade, abstractos como a ilusão. Começava
a embriagar-me com a descoberta do seu mundo, o mistério sempre me estimulou e,
uma vez mais, ela abstraía-me do meu passado. Foi então que, nas margens deste
Mondego (talvez por ser filho da mais antiga história de amor de Portugal),
despi-me do medo, fui senhor de mim e, num ímpeto apaixonado, beijei-a.
Perplexamente interroguei-me uma vez mais: o quê que a torna tão desejável?
Como é que as palavras dela ficam encriptadas no meu córtex? Como é que me fui
lembrar da dica “tens namorado?” (como a sua madrinha lhe ensinou) para a
beijar? Não sabia o que nos reservava, mas tinha de “deixar a minha marca”.
O futuro,
desvanecido, começava a tornar-se mais claro, tinha de a conquistar. Tinha de
descobrir o seu nome, a sua essência, o seu passado, estranhamente só a
conhecia por “meia leca”. Inevitavelmente as minhas inseguranças apoderaram-se
novamente de mim: o quê que um idiota, com uma cara de puto, (ainda que
engraçada, não se tratava certamente de um brad pitt) que deixa o chapéu-de-chuva
aberto sem estar a chover, que fuma, bebe, que é mulherengo, orgulhoso,
egocêntrico, perfeccionista, desavergonhado e um fracassado, lhe tinha para
oferecer? Começámos a namorar dia 21 de Fevereiro de 2013 (ainda a conhecia por
meia leca), éramos “um casal do caralho”, ela era tudo o que sempre quis, uma
rapariga altiva com brio de si, lutadora, extrovertida, romântica, apaixonada,
racional, afável, exigente consigo e com os outros, impetuosa, majestosamente
graciosa até nos seus momentos mais comprometedores. Era o tipo de rapariga com
que se passam tardes infindáveis num banco de jardim, a rapariga que se leva a
jantar com os pais, que se leva a conhecer os amigos, com quem se pode sair sem
qualquer tipo de constrangimentos, com quem se passam tardes a ver filmes
enquanto lhe acariciamos o cabelo, a quem se oferece aos 4 meses de namoro uma
pulseira que simboliza a história de amor, o compromisso e a confiança. Mas os
meus receios, embora menos intensos, permaneciam. Não tenho a menor dúvida que
esses influenciaram as minhas atitudes e, infelizmente, levaram-me a cometer
erros.
Não posso
desculpar-me levianamente, mas tal como comecei esta história, não passo de um
cândido contador de histórias, com muito para crescer, muito para aprender,
muito por concretizar e muito para mudar. Eu não sei bem onde pára a “meia
leca” e, agora, já sem réstias de orgulho, arrependo-me dos sinais subtis que
não soube ler, dos pormenores que ficaram por observar mas, sobretudo, de ter
demorado tanto tempo a entender porquê que me escolheu. Ela procurava somente
isto, alguém que a tratasse como uma prioridade, de acordo com o que ela
merece. Nunca se resumiu à procura de um Homem perfeito, não havia necessidade
para as minhas comparações descabidas, agora resta-me a esperança de
reencontrar essa menina dos caracóis e olhos esverdeados que tanto estimo,
tenho saudades nossas.
Agora falemos
de assuntos sérios, por admirar o teu gosto pela leitura, não consegui evitar
contar-te esta história, desconfio que faz o teu género, minha querida e incógnita
amiga. Só te quero pedir um favor, não há nada neste mundo que me faça mais feliz
do que voltar a “meia leca”, por esse motivo, se a vires, dá-lhe este recado:
Diz-lhe que a amo sinceramente e que para ela, se estas 973 palavras não forem suficientes, haverá tempo para o provar de outras formas. Obrigado pela atenção, do fundo do coração*
Diz-lhe que a amo sinceramente e que para ela, se estas 973 palavras não forem suficientes, haverá tempo para o provar de outras formas. Obrigado pela atenção, do fundo do coração*

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