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terça-feira, 9 de julho de 2013

Contador de Histórias

Sou o culminar de todo o potencial desperdiçado. Sou o poeta que nunca cantou. Sou o músico que nunca compôs. Sou o filósofo que nunca pensou. Sou o humorista que nunca gracejou. Sou o génio que nunca criou. E eis que, numa frenética apoteose, glorifico o tudo que não sou.
Vivendo uma vida que não me pertence, vendo o futuro desvanecer, sou historiador. Sou um cândido contador de histórias, irremediavelmente quebrado, que vive o Passado que não é seu. Contar histórias tornou-se o meu refúgio, afinal de contas, falar de mim é um lembrete constante de todos os meus desinteressantes e supérfluos fracassos e, simultaneamente, das minhas inúmeras virtudes. Sou um paradoxo. Sou a consciência da minha excelência e sou a preguiça (que desprezo) que me amarra à mediocridade. Será esse potencial uma bênção? Não. É uma terrível tortura que me assombra a todo o instante, é um pesado conflito comigo próprio que, como se tratasse de erosão, vai corroendo o nada que sou. Todos nós temos uma face negra.
Entretanto, como que uma brisa, saltitante, pulsante, refrescante e incessante, ela subitamente apareceu. Eu sentia a primavera a chegar, eu desabrochava do casulo que há tanto me oprimia e encantei-me com ela. Começou com o meu guarda-chuva verde e o entrelaçar dos nossos braços para nos protegermos da chuva, seguiu-se o café na associação. Os seus lábios moviam-se a uma velocidade estonteante, próprio da sua irrequietude e “i
mpaciência”, e, as suas palavras soavam-me aquelas sonatas suaves mas magnânimas, repletas de energia e sentimento. Como bons caloiros que éramos, falámos de praxes e da faculdade, como bons boémios que somos falámos de noites e namoricos, como desconhecidos que éramos, falámos de gostos e interesses, o café durou pouco mais de duas horas. Lembro-me como se fosse hoje que continuava a chover, o caminho era longo, molharam-se as suas sapatilhas azuis e os meus sapatos de vela. A chuva realçava o seu sedutor e apetecível perfume. Fiquei intrigado, como poderia eu reparar em tantos detalhes em apenas duas horas? A curiosidade consumia-me e, nem que por momentos, esquecia-me dos fantasmas que atemorizavam o tudo que não sou.
O contacto com ela tornava-se constante e inevitável. Continuámos a estar juntos e corri um risco enorme, comecei a olhá-la nos olhos, aqueles seus lindíssimos olhos esverdeados que eram o seu reflexo: opacos como a realidade, abstractos como a ilusão. Começava a embriagar-me com a descoberta do seu mundo, o mistério sempre me estimulou e, uma vez mais, ela abstraía-me do meu passado. Foi então que, nas margens deste Mondego (talvez por ser filho da mais antiga história de amor de Portugal), despi-me do medo, fui senhor de mim e, num ímpeto apaixonado, beijei-a. Perplexamente interroguei-me uma vez mais: o quê que a torna tão desejável? Como é que as palavras dela ficam encriptadas no meu córtex? Como é que me fui lembrar da dica “tens namorado?” (como a sua madrinha lhe ensinou) para a beijar? Não sabia o que nos reservava, mas tinha de “deixar a minha marca”.
O futuro, desvanecido, começava a tornar-se mais claro, tinha de a conquistar. Tinha de descobrir o seu nome, a sua essência, o seu passado, estranhamente só a conhecia por “meia leca”. Inevitavelmente as minhas inseguranças apoderaram-se novamente de mim: o quê que um idiota, com uma cara de puto, (ainda que engraçada, não se tratava certamente de um brad pitt) que deixa o chapéu-de-chuva aberto sem estar a chover, que fuma, bebe, que é mulherengo, orgulhoso, egocêntrico, perfeccionista, desavergonhado e um fracassado, lhe tinha para oferecer? Começámos a namorar dia 21 de Fevereiro de 2013 (ainda a conhecia por meia leca), éramos “um casal do caralho”, ela era tudo o que sempre quis, uma rapariga altiva com brio de si, lutadora, extrovertida, romântica, apaixonada, racional, afável, exigente consigo e com os outros, impetuosa, majestosamente graciosa até nos seus momentos mais comprometedores. Era o tipo de rapariga com que se passam tardes infindáveis num banco de jardim, a rapariga que se leva a jantar com os pais, que se leva a conhecer os amigos, com quem se pode sair sem qualquer tipo de constrangimentos, com quem se passam tardes a ver filmes enquanto lhe acariciamos o cabelo, a quem se oferece aos 4 meses de namoro uma pulseira que simboliza a história de amor, o compromisso e a confiança. Mas os meus receios, embora menos intensos, permaneciam. Não tenho a menor dúvida que esses influenciaram as minhas atitudes e, infelizmente, levaram-me a cometer erros.
Não posso desculpar-me levianamente, mas tal como comecei esta história, não passo de um cândido contador de histórias, com muito para crescer, muito para aprender, muito por concretizar e muito para mudar. Eu não sei bem onde pára a “meia leca” e, agora, já sem réstias de orgulho, arrependo-me dos sinais subtis que não soube ler, dos pormenores que ficaram por observar mas, sobretudo, de ter demorado tanto tempo a entender porquê que me escolheu. Ela procurava somente isto, alguém que a tratasse como uma prioridade, de acordo com o que ela merece. Nunca se resumiu à procura de um Homem perfeito, não havia necessidade para as minhas comparações descabidas, agora resta-me a esperança de reencontrar essa menina dos caracóis e olhos esverdeados que tanto estimo, tenho saudades nossas.
Agora falemos de assuntos sérios, por admirar o teu gosto pela leitura, não consegui evitar contar-te esta história, desconfio que faz o teu género, minha querida e incógnita amiga. Só te quero pedir um favor, não há nada neste mundo que me faça mais feliz do que voltar a “meia leca”, por esse motivo, se a vires, dá-lhe este recado:
Diz-lhe que a amo sinceramente e que para ela, se estas 973 palavras não forem suficientes, haverá tempo para o provar de outras formas. Obrigado pela atenção, do fundo do coração*

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