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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Carta de Amor

Enquanto existir chama na minha alma, nunca farás parte do passado, tu és a acendalha deste lume. Hoje apetecia-me escrever-te uma carta de amor, para reavivar um tempo áureo em que se saboreava a saudade provocada pela demora, o cheiro da tinta e do papel, um tempo onde a caligrafia transparecia o estado de espírito, onde se apreciavam as subtis mudanças na escrita, na escolha das palavras, um tempo em que a distância não era obstáculo para amores platónicos. Às vezes sinto que vivo num tempo que não é meu: a juventude não demonstra coragem para moldar o futuro à sua imagem; a sociedade está formatada e prevalece a anomia social e o discurso vazio de conteúdo; não se apreciam os pormenores da vida e vive-se num frenesim pouco saudável, sem destino aparente; vigora a crise de mentalidade.
Por isso, meu amor, hoje, escrevo só para ti:
Não vou dizer-te que sinto saudades, que não me esqueci de ti, que ainda te amo, estaria a menosprezar-nos, eu sei que o que tivemos foi algo ímpar e não preciso de salientar evidências (eu sei que é recíproco, não pode ser de outra maneira, pois não?). Hoje, vou só relembrar-te de nós.

Estou deitado na cama, tenho a companhia de um maço de tabaco, de uma garrafa de whisky e de um caderno de rascunhos. Foi neste preciso colchão onde transformámos horas em dias, onde te cantei, onde te toquei melodias no piano , onde sorri, onde me apaixonei, onde sonhei, onde chorei, onde relembrei, onde esperei, onde senti saudade. Veio-me à cabeça o cheiro do teu perfume, do champô com que gentilmente acariciei o teu cabelo, da tua casa, da chuva quando ia ao teu encontro, do tabaco impregnado nos nossos lábios, dos teus majestosos cozinhados, do teu sofá quando nos aninhávamos. Mais do que cheiros, recordo-me de momentos: da serenata que elegantemente te dediquei, do meu inocente e desajeitado pedido de namoro, da ansiedade que senti quando te ofereci o cravo, do sentimento de aliança que o isqueiro que me trouxeste de Paris me provocou, do orgulho de me trajar fora do tempo no choupal só para ti, da osmose que criávamos quando os nossos olhos se cruzavam e os nossos narizes se encontravam, da preocupação que me abalou durante tua estadia no hospital e que me compelia a estar ainda mais próximo de ti, de conhecer o teu pai e falar com a tua mãe e com a tua irmã, preocupadíssimas contigo, da minha declaração de amor no cortejo, do relógio que te ofereci pelos anos para contares o tempo até ao nosso reencontro, do sentimento de realização ao me apresentares aos teus amigos, da paixão do nosso primeiro beijo nas margens do Mondego, da saudade que apertou enquanto estiveste em Paris, da primeira vez que demos as mãos em público, de quando me deste a conhecer o teu tumblr para inspirar melhor o teu mundo, da proximidade que senti quando me mostraste os teus desabafos escritos em papel, bem como as fotografias do teu passado, de te adormecer, de adormecer contigo, das tuas provocações, dos nossos cafés. Lembras-te? Aqui, nesta cama, recordo-me de ti e apercebo-me: não é aqui o meu lugar, eu pertenço-te.
Hoje falta-me a inspiração para escrever grandes palavras, mas por vezes, a simplicidade traduz grandiosidade. Deste-me muito para recordar, mas espero que não se resuma a isso. 21-02-2013, página 52 de 365, espero que este livro, tenha sequela


6 comentários:

  1. lindo, lindo! fiquei tão viciada nas palavras que tive que ler tudo duas vezes.
    felicidades*

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    1. Muito obrigado, fico contente por teres gostado Catarina. Espero que sim, que seja motivo de felicidades*

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  2. Não tenho palavras. Não sei se diga que me apaixonei pelo que escreveste ou pela história que nas palavras transmitiste. Que lindo, que desabafo tão amoroso, tão apaixonante. A maneira como descreveste cada momento, és um romântico.
    Continua, escreves muito bem. E já agora, conquista essa miúda. Continuem essa história tão linda.

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    1. Muito obrigado, essa reacção só me dá mais força para lutar e para continuar a escrever! Eu já a conquistei uma vez, mas como ser imperfeito que sou, andamos a tremer. Um bem haja ao que disseste "Continuem essa história tão linda".
      Beijinho soraia :)

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  3. Uau, vê-se mesmo que escreves com o coração.Se este for o teu sonho deverias prossegui-lo porque vais longe :)

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  4. Derreto-me completamente com as tuas palavras. Escreves tão mas tão bem. Adoro a maneira com que brincas com cada palavra; a maneira com que as fazes fluir e principalmente a maneira com que te entregas a escrever. Podia dizer que o texto está lindo e tudo o que quiseres mas tenho mesmo de dizer que está perfeito. Adoro mesmo!! E sim luta por essa menina que, tanto te faz feliz e tanta inspiração te traz *-* continua ;)

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